Diva mas sem Frescura

Feminismo e o casamento: opostos ou não?

Assim que eu anunciei que iria me casar, algumas pessoas me questionaram sobre o “meu feminismo”, e vejo que em 2017 muita gente ainda entende que ser feminista é ser contra o casamento. Resolvi fazer esse post pra contar um pouco pra vocês sobre a vida de feminista casada, e espero que todos os leitores possam ver que é uma coisa completamente normal.

 

 

Quem é que manda: você ou ele?

 

Bom, como não somos funcionários um do outro, ninguém manda em ninguém e nem em nada. Nós dois entendemos o casamento como uma parceria, então nós nos ajudamos sempre, conversamos, tomamos decisões juntos sobre tudo: quem vai limpar o que, quem cozinha e quem lava a louça, o que vamos fazer com nosso dinheiro e o que vamos comprar no mercado. Tudo é decidido mediante um acordo em que ambos saiam felizes e satisfeitos.

 

 

Você bota o seu marido pra fazer faxina? Uau.

 

Eu não boto ele pra fazer faxina porque como qualquer ser humano que preze uma condição mínima de higiene pra viver, ele limpa a casa quando vê que ela precisa de limpeza, e não por tirania minha. (Obs: homem nenhum merece um prêmio por isso). Nós geralmente fazemos uma permuta: ele odeia lavar a louça, então eu lavo. Eu odeio lavar o banheiro, então ele lava. E assim vai. Como sou professora e ele tatuador, às vezes precisamos trabalhar no final de semana, e então um dos dois limpa sozinho mesmo. E como temos uma bebê de 3 meses, às vezes eu cuido dela e ele limpa, às vezes ele cuida e eu limpo.

 

 

Como funcionam as finanças?

 

Olha, isso é muito particular de casal para casal. Nós dois trabalhamos, e uma parte do dinheiro e gente gasta com o que quiser, outra parte nós pagamos contas, fazemos compras e decidimos como gastar juntos. Cada um tem sua conta no banco, mas o cartão de crédito é usado para as necessidades dos dois, então sempre consultamos um ao outro quando precisamos recorrer a essa modalidade de pagamento. A gente não precisa pedir permissão pra gastar com o que quer, mas também não somos egoístas com gastos pessoais.

 

 

foto: arquivo pessoal

 

Quem cuida do bebê?

 

Eu seria injusta se dissesse que ele não cuida nada, mas também estaria mentindo se dissesse que há uma divisão justa nesse quesito. Ele dá banho, troca fralda, fica com nossa filha, mas tudo quando eu peço. Com a maioria das mulheres casadas e mães feministas que eu conheço também é assim. Todo mundo fala do tal “instinto de mãe”, mas infelizmente não rola um instinto de pai. Eu sinceramente não sei dizer se é algo social ou biológico, visto que em muitas espécies é comum a mãe ficar cuidando exclusivamente dos filhotes e o pai não estar nem aí (kkkk to rindo mas é sério).

 

 

Como é o ciúme e como lidam com as redes sociais?

 

Eu particularmente casei com um homem que eu confio e admiro, e que confia em mim e me admira, então nunca tivemos problemas com isso. Apesar de não termos segredos, temos sim um pouco de privacidade. Nunca mexemos no celular um do outro, mas se for necessário, temos livre acesso. Sabemos as senhas um do outro, mas nunca olhamos nada sem permissão. Isso é respeito e confiança, vai de relacionamento pra relacionamento. Ele nunca criticou nenhuma roupa minha, nunca teve ciúme de nenhum amigo, nunca invadiu meu espaço, e acredito que a recíproca seja verdadeira.

 

 

Você abdicou do seus desejos pessoais e profissionais por causa do casamento?

 

Não. Quando decidi formar uma família, meus objetivos foram mudando ao longo do tempo, mas prezo muito pela minha carreira profissional, por isso me casei com um homem que respeita e admira isso, e sempre me incentiva a conquistar meus sonhos e metas. É difícil dizer que tenho “desejos pessoais” porque a maioria das coisas grandes que sonho em fazer, quero meu marido e minha filha comigo, mas nas poucas necessidades pessoais que tenho, como cuidar do meu corpo, do meu visual e da minha sanidade mental, trabalhar e crescer no meu trabalho, etc… Ele me ajuda no que pode, compreende e respeita, então não precisei abrir mão dessas coisas.

 

 

E as brigas?

 

Nenhum casamento é perfeito, então lógico que brigamos, mas nunca, jamais, em tempo algum, na frente dos outros. Sempre esperamos o momento certo e nunca nos desrespeitamos com xingamentos ou agressões de nenhum tipo. Como homem criado em uma sociedade machista e eu mulher criada em um ambiente feminista, lógico que temos embates às vezes, e eu sempre aponto o machismo dele quando há, e ele geralmente escuta e reflete sobre o que eu disse.

 

 

 

Como vocês podem ver, é um relacionamento normal, saudável, respeitoso e parceiro. Por ser feminista, eu não odeio os homens e não odeio o casamento, o que odeio é a ideia de que só por ter uma vagina a mulher é quem deve limpar, fazer comida e educar os filhos, abdicando de seus sonhos e desejos enquanto o homem prospera e conquista o mundo em seu infinito tempo livre. Para que uma relação entre uma feminista e um homem dê certo, basta que ele deixe o machismo de lado, seja respeitoso e companheiro, e pense não só nas necessidades e na felicidade dele mesmo, mas na de sua companheira também. Não existe chefe e subordinado. Não existe “papel de homem” e “papel de mulher”. Existem duas pessoas que se amam, se ajudam, se respeitam e sonham juntas. Não acho que precise ser feminista pra querer isso. E vocês?

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Luma Mattos

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“Moço, fecha essa perna”: Sobre ser mulher no transporte público

As moças proletárias do meu Brasil certamente já se depararam com o infortúnio de sentar ao lado de algum homem que não só ocupa a cadeira em que está, como também boa parte da cadeira ao lado. A maioria deles não se acanha quando alguma mulher senta ao seu lado e segue lá, com as pernas arreganhadas e confortáveis. Locomovo-me por meio de ônibus pelo menos 2 vezes ao dia de segunda à sexta-feira, logo, utilizo aqui com propriedade os dados empíricos de minha rotina.
 
Durante muito tempo me questionei:
 
– Será que eles possuem bolas de cristal?
– Será que eles estão ocultando algum objeto quebrável entre a virilha e, por isso, não pode fechar as pernas?
– Será que eles pagaram uma passagem pra eles e outra para as bolas e, por isso, podem ocupar dois lugares?
– Será que são espaçosos, folgados e sem noção?

Alguns podem alegar que homens possuem testículos e é impossível sentar com as pernas fechadas quando se é um portador de bolas. Mas, para concluir que isso está longe de ser uma justificativa plausível, basta observar o que milagrosamente acontece com esses homens quando outro sacudo senta ao lado: Mais que rapidamente as pernas milagrosamente se fecham, afinal, nenhum dos dois quer ficar roçando a perna em outro moço, né.

Considerando a falta de educação, noção e senso coletivo desses queridos, Madri lançou uma campanha de conscientização para os homens “fecharem as pernas” no transporte público. Por meio de um comunicado, a Empresa Municipal de Transportes de Madrid disse que o objetivo das placas foi alertar os passageiros do sexo masculino acerca da “necessidade de manter o comportamento cívico e respeitar o espaço de todos a bordo do ônibus”.
 
Em 2014, a autoridade responsável pelo transporte metropolitano de Nova York também lançou uma iniciativa similar ao espalhar placas no metrô da cidade que diziam: “Cara…pare de abrir as pernas, por favor”. A cidade americana da Filadélfia também iniciou a campanha “Cara, isso é rude”, enquanto o departamento de transportes de Seattle pendurou placas que mostravam um polvo espalhando seus tentáculos nos assentos próximos.
 

Eu quando sento ao lado de homem espaçoso.


 

Desde cedo as meninas são ensinadas a cultivar posturas retraídas: “Senta igual uma mocinha”, “mocinha tem modos”, “mocinha não faz falta de educação”. O mesmo não ocorre aos meninos. Sendo assim, podemos refletir além do fato de que se tratam de homens mal educados e espaçosos, pontuando que tal questão também envolve relações de poder e corporeidade. A maioria dos homens naturalmente se sentem a vontade para serem espaçosos, mesmo que inconscientemente. Eu realmente acredito que muitos não o façam de propósito, visando prejudicar ou invadir o espaço do outro, daí a importância de campanhas de conscientização como essa. Talvez, a maioria deles sequer tenha se dado conta desse hábito um tanto inconveniente para quem está ao lado.
 
Vamos ajudar a alertá-los?

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Daniele Fabre

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Conte sua história pra gente!

 

Pra vocês que sempre nos pedem conselho por comentário: essa é sua chance de ter o conselho de 8 amigas muito sensatas que somos nós, escritoras deste blog, no caso. Quer nossa ajuda? Gostaria de saber o que a gente pensa do seu problema? Pode contar com a gente! Mande um e-mail para contato@divasemfrescura.com contando sua história e nós iremos selecionar algumas para postar aqui com nossos conselhos!!!

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Divas

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Feminista é tudo igual? NÃO!

É muito comum que as pessoas tenham uma noção de feminismo como uma coisa só, um grupo de mulheres super unidas que querem matar os homens e dominar o mundo, mas na real não é nada disso. A Olga falou um pouco sobre o assunto nesse post aqui, mas hoje vim conversar com vocês sobre diferentes tipos de feminismos.

 

 

Muitas pessoas não pararam pra pensar e reparar como é estranho que num mundo cheio de mulheres, os homens ocupem posições mais privilegiadas. Eles ocupam os cargos mais altos nas empresas ainda que menos qualificados do que muitas mulheres, podem falar sua opinião e discordar à vontade que ninguém os chama de histéricos, exagerados ou malucos, podem sair livremente nas ruas sem serem assediados mesmo que estejam sem camisa, não tem medo de serem estuprados quando andam nas ruas à noite, não deixam de ser contratados porque tem filhos e muitas vezes são tidos como pessoas maravilhosas apenas por pagar uma pensão ridícula para os filhos. Enfim, são muitas as situações em que nós, mulheres, estamos em desvantagem em relação ao sexo oposto, mas nem todas as feministas tem os mesmos ideais e as mesmas reivindicações, por isso esse post explicará para vocês a diferença básica entre as principais vertentes do feminismo: feminismo liberal, feminismo radical, feminismo negro, feminismo interseccional e feminismo trans. Após a leitura, você poderá ver com qual vertente se identifica mais e se informar sobre o assunto. Então vambora fazendo?

 

 

 

O feminismo liberal

 

Também chamado de libfem, provavelmente é o tipo de feminismo mais antigo que existe, deve ter sido o primeiro que surgiu e tem reivindicações básicas no que diz respeito aos direitos das mulheres, como por exemplo o direito ao voto e o direito de usar calça jeans. Adeptas dessa vertente geralmente concordam que homens podem ser feministas se quiserem. Esse tipo de feminismo não pretende mexer nas estruturas sociais, está satisfeito com o capitalismo, mas acredita que as mulheres tem as mesmas capacidades do que os homens e por isso devem ser incluídas e terem as mesmas oportunidades deles, além de igualdade salarial e chances no mercado de trabalho. Ou seja, uma luta básica por igualdade considerando a sociedade como é hoje. Feministas liberais lutam pela liberdade sexual e pela queda do conceito de “mulher pra casar”, e também pelo direito ao aborto, mas acho que isso todas querem, né? Então, sigamos. Exemplo de feminista liberal: Emma Watson.

 

 

 

“Mulher, acorda! A força da razão faz-se ouvir em todo o universo: reconhece teus direitos. O poderoso império da natureza já não está limitado por preconceitos, superstição e mentiras. A bandeira da verdade dissipou todas as nuvens da parvoíce e da usurpação. O homem escravo multiplicou suas forças, precisou recorrer às tuas (forças) para romper seus grilhões. Tornado livre, ele fez-se injusto em relação à sua companheira.” (Olympe de Gourges)

 

O feminismo radical

 

Chamado de radfem, deve ser a vertente mais complexa e a que mais sofre ataques, mas suas reivindicações não são tão absurdas quanto o senso comum diz que são. O feminismo radical acredita que todas as estruturas sociais como são hoje privilegiam os homens, e a esse conjunto de estruturas damos o nome de patriarcado. A teoria radical acredita que todas as opressões às mulheres devem-se ao patriarcado. Para acabar  com isso, seria necessária uma mudança radical na sociedade, abolindo os papéis de gênero, como por exemplo a ideia cor de menina x cor de menino, emprego de mulher x emprego de homem, tarefa feminina x  tarefa masculina, roupa feminina x roupa masculina. Algumas feministas radicais também possuem opiniões polêmicas que consideram que prostituição é uma opressão social advinda do machismo, e não uma escolha, e que transexuais não podem ser consideradas mulheres porque nasceram e foram socializadas como homens. Exemplo de feminista radical: Valerie Solanas.

 

“Chamar um homem de animal é lisonjeá-lo: ele é uma máquina, um vibrador ambulante. É comum dizer que homens usam as mulheres. Usam para que? Certamente não para o prazer.” (Valerie Solanas)

 

 

O feminismo negro

 

Enquanto mulheres brancas lutavam por direito ao voto e pelo direito de não se casar, mulheres negras estavam (e ainda estão) na pirâmide da base social, lutando pelo direito de serem vistas como gente. A maioria dos homens acreditava (e muitos ainda acreditam) que os corpos das mulheres negras são ótimos para o sexo, mas não para formar uma família, por isso as reivindicações do feminismo negro batem de frente com as do feminismo liberal. Para mulheres negras, não há vantagem nenhuma no capitalismo, e a liberdade sexual sempre existiu para elas. O que custa a existir é uma  visão de que mulheres negras como mulheres inteligentes, sensíveis e amáveis, dignas de formar uma família. As mulheres negras vivem sob o constante estereótipo de serem fetiches sexuais, sendo tratadas como objetos, e também são tachadas de barraqueiras, nervosas e escandalosas.  Racismo e sexismo caminham lado a lado, por isso a luta do feminismo negro não tem como se dissociar da luta contra o capitalismo. Exemplo de feminista negra: Angela Davis.

 

 

“Eu sou definida como a outra em todos os grupos de que participo. A forasteira, tanto pela força como pela fraqueza.” (Audre Lorde)

 

O feminismo interseccional

 

Também chamado de intersec, essa é a vertente que abarca todos os tipos de mulheres: negras, brancas, indígenas, trans, cis, deficientes, lésbicas, heteros, bis, ricas e pobres. O conceito de interseccionalidade entende que diferentes grupos de mulheres possuem diferentes reivindicações, por isso é necessário incluir todas essas reivindicações na luta feminista e estar ciente da existência delas. É a vertente feminista cujas adeptas tem empatia por todas as mulheres e compreende que suas necessidades são diferentes, e que todas merecem ser ouvidas e conquistadas. Como a classe, raça e gênero são fatores cruciais de opressão na sociedade, o feminismo interseccional surge para dar conta de lutar por todas as formas de libertação. Exemplo de feminista interseccional: Djamila Ribeiro.

 

“Essa visão simplista de que mulheres e homens sofrem de modo igual precisa ser superada. Falta um olhar interseccional.” (Djamila Ribeiro)

 

 

O feminismo trans

 

Feminismo trans ou transfeminismo é a vertente que luta pelos direitos das mulheres transexuais. Esta vertente luta pela visão de que mulheres trans são mulheres e luta também, obviamente, contra o machismo e a transfobia. É a vertente mais recente do feminismo, talvez junto com o interseccional ou pouco posterior. A luta das feministas trans tem sido muito dura porque elas sofrem preconceito e exclusão dentro do próprio movimento feminista, mas a cada dia mais e mais pessoas se conscientizam de suas atitudes transfóbicas e acredito que essa realidade esteja mudando graças a muitas transfeministas que vem compartilhando suas ideias publicamente.  Exemplo de transfeminista: Maria Clara Araújo.

 

 

Seja qual for o seu tipo de feminismo, não importa: o que importa é a ideia de que mulheres são gente e merecem respeito!

 

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Luma Mattos

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Aos homens, a desculpa. Às mulheres, a culpa.

Acho que nenhuma outra frase expressa tão bem minha sensação em relação às últimas polêmicas, quanto essa que usei no título do post. Pra quem não sabe, no dia 31 de Março foi publicado no blog “agora é que são elas”, da Folha de São Paulo, o relato da figurinista Su Tonani, de 28 anos, descrevendo o assédio que sofreu do ator José Mayer quando trabalharam juntos. Inicialmente José Mayer negou veementemente as acusações e afirmou que as atitudes descritas por Su eram típicas de seu personagem, não dele. Posteriormente, José Mayer assumiu o assédio e pediu desculpas.

 

Foto: Divulgação


 

Recentemente, o cantor Vitor, da dupla sertaneja Vitor e Léo, foi denunciado pela esposa por violência doméstica. Em um primeiro momento ele também negou as acusações veementemente e, curiosamente, logo em seguida sua esposa fez uma declaração à imprensa dizendo que ele jamais a machucaria. No entanto, semana passada Vitor foi indiciado pela Polícia Civil com base em um vídeo no qual é visto empurrando a companheira grávida.

 

Foto: Divulgação


 

Nos dois casos a palavra da vítima foi desacreditada. Nos dois casos as pessoas logo imaginaram que as duas queriam tirar algum tipo de proveito dessa situação. Não consigo imaginar qual seria a vantagem em se expor dessa forma em uma sociedade machista como a nossa, que tende a culpar mulheres e dar aquele desconto para os homens. Mas enfim, há quem pense isso.

 

Não vou entrar no mérito de as desculpas de José Mayer serem sinceras ou não, tampouco vou sugerir medidas punitivas para o cantor Vitor, pois não cabe a mim fazê-los. Quero refletir sobre o que leva parte da sociedade a SEMPRE desacreditar a palavra da vítima em casos de abuso ou violência. Quando alguém diz que foi assaltado ninguém fica “ahhhh, mas será que ele foi assaltado mesmo ou só quer difamar o suposto ladrão?”, “Será que ele quer aparecer inventando esse roubo? Sei não hein”. Quando alguém conta ter sido vítima de um estelionatário não vejo questionamentos como “ihhh, mas será que ele não contou a senha do cartão e agora quer se fazer de vítima?”.

 

Por que esse tipo de descrédito instantâneo só ocorre em crimes específicos, sofridos majoritariamente por mulheres?

 

 

Quando alguma mulher anônima denuncia violência doméstica já é bem comum ouvirmos tentativas de justificar a agressão e questionar a idoneidade da vítima. Tais reações são amplificadas quando o agressor ou assediador se trata de algum artista ou personalidade querida pelo povo, tal qual percebemos nas últimas semanas.Talvez, daí a hesitação de muitas mulheres em denunciar e o medo em insistir na denúncia! Talvez, por tudo isso, a esposa do Vitor tenha declarado que ele jamais a machucaria. Ela, assim como todas as anônimas que são agredidas, sabe que além das marcas físicas e psicológicas da agressão, teria que lidar com o descrédito e julgamento da sociedade.

 

Imagem da campanha promovida pela APAV (O número no cartaz é de Portugal, aqui no Brasil ligue 180)


 

Se pensarmos em outros contextos e situações, veremos que esse padrão que deu título ao post se repete.

 

Ao homem sempre é dada uma desculpa, uma justificativa, um atenuante. Não importa o quanto sua atitude foi absurda ou criminosa, ele sempre será aliviado de alguma forma. Umas semana atrás foi muito compartilhada a notícia de que foi negado aborto legal a uma criança estuprada de 11 anos. Como não tenho vergonha na cara, cliquei na caixa de comentários da página do G1 no Facebook e li vários: “Cadê a mãe dessa criança?” e “Tem muita menina de 11 anos que só anda de shortinho”

 

Também algumas semanas atrás, noticiaram sobre um homem que matou 2 filhos e suicidou em seguida, deixando bilhete vingativo para a ex esposa. Comentários na redes sociais: “Mas não é possível que essa mulher não percebeu que ele era psicopata”, “Pra ele chegar a loucura de fazer isso alguma ela aprontou com ele”. Mesmo quando, inegavelmente, o homem é o culpado da situação, tentam aliviar para ele e culpar a vítima ou a mulher mais próxima.

 

Nos últimos anos houve um aumento considerável do número de mulheres que denunciam assédio ou agressões físicas. Isso, entre outras mudanças positivas, me deixa otimista acerca do nosso futuro no que tange a questões de gênero. Mas, para não corrermos o risco de retroceder nessas questões, precisamos ter o cuidado de não colaborar com um sistema que desacredita a vítima a priori, desestimula a denúncia e fortalece o agressor.

 

Cabe a nós rompermos, cotidianamente, com discursos que dão aos homens as desculpas e às mulheres, a culpa.

 

ESCRITO POR

Daniele Fabre

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