Diva mas sem Frescura

Nudez, arte, sexualidade e crianças: o que está acontecendo?

Esses dias surgiram fotos de uma menina, criança, ao lado de um homem nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e obviamente a notícia deu o que falar. Fundamentalistas e fanáticos religiosos foram até o local para quebrar o museu e agredir os funcionários, e muita gente que ficou em casa compartilhou a foto e o vídeo da criança ao lado do homem nu (que não era uma pessoa aleatória, era um artista fazendo uma performance) com direito a muito textão. Claro que tudo isso gerou comoção nas redes sociais. Vi muitos comentários controversos em relação a esse assunto desde o cancelamento da exposição do Queermuseu em Porto Alegre, por isso acho importante compartilhar algumas reflexões minhas com vocês, minhas leitoras amadas, queridas e sensatas.

 

 

 

Primeiramente, após a exposição do Queermuseu houve vários e vários textos sobre arte, principalmente afirmando o que é e o que não é arte, e muita gente falando mal desse tipo de texto. Bom, é preciso a gente pensar que nem todo mundo no Brasil tem uma educação de ponta e muito menos uma boa noção artística. Nosso país não investe largamente em incentivo cultural, por isso o acesso de grande parte da população à arte é praticamente inexistente, com isso, o acesso à reflexão sobre o que é arte também é praticamente inexistente pro povão. Então, antes de sair reclamando que “gente burra nem sabe o que é arte e tá falando absurdos” lembre-se de que na maioria dos casos as opiniões das pessoas não são pautadas em falta de inteligência, mas sim no senso comum e na falta de informação sobre os objetivos da arte.

 

 

exposição Queer museu cancelada em Porto Alegre

 

 

Bem, em relação à criança observando o homem nu no museu: sabemos que antes da sala onde ele estava realizando a performance havia sinalização de conteúdo +18, e também sabemos que a mãe da criança estava ao lado e permitiu que ela não somente entrasse, mas que interagisse com o artista. Dentro da minha experiência como mulher e como mãe de uma menina linda de 5 meses, devo confessar que acho isso EXTREMAMENTE problemático. É lógico que o corpo humano é uma coisa natural e que nem todo contexto de nudez é um contexto sexual, então eu realmente não relaciono essa situação com pedofilia ou com incentivo à pedofilia, porque claramente naquele contexto não havia sexualidade envolvida. Apesar disso, as crianças (principalmente meninas) que sofrem abuso ou violência sexual nem sempre sabem reconhecer que estão sofrendo violência/abuso. Isso porque na maioria dos casos, a violência parte de pessoas conhecidas, e além disso, colo e “carinho” raramente são associados a abuso sexual porque a criança não tem essa vivência, essa noção, esse conhecimento de mundo, ela apenas se sente culpada e estranha com a situação envolvendo genitais e mãos e adultos. Acredito que há um momento propício pra falar sobre corpo e sobre sexualidade com as crianças, mas para isso é preciso que elas tenham entendimento do que é sexual e do que não é, e para uma criança, diferenciar as duas situações não é tarefa fácil.

 

manifestantes protestam em frente ao MAM SP

 

Tocar em um estranho pelado pode dificultar a ideia de consentimento pra essa menina, e o lúdico pode se confundir com o sexual porque crianças são inocentes e inexperientes. Acho que a mãe pode e deve ensinar à filha dela sobre como são e como funcionam os corpos de homens e mulheres, mas não acho pertinente que isso seja feito ao vivo e a cores, na frente de várias pessoas, em um museu, com um estranho nu. Acho também que por mais que a intenção da mãe tenha sido boa (pressupondo isso, porque não a conheço), deveria ter algum funcionário do museu na porta para impedir a entrada de menores de 18 anos. Uma vez fui ao cinema com a minha mãe e queríamos ver um filme do Stallone, mas eu tinha 16 anos e não pude entrar nem com a minha mãe do lado. Ou seja: deve-se proteger as crianças da falta de noção alheia, ainda que a pessoa sem noção seja a própria mãe.

 

Eu sei que as experiências pessoais diferem de pessoa pra pessoa, mas eu, particularmente, odiei quando meu corpo começou a mudar aos 12 anos de idade e vários homens NOJENTOS começaram a mexer comigo na rua. Inclusive por 2 vezes homens colocaram o indesejado pinto pra fora na minha frente, na primeira vez eu tinha 13 anos, na segunda 16, e em ambos os casos eu não estava preparada pra isso. Foi um trauma muito grande, eu me senti suja, culpada de alguma forma, e enfim, eu já não era nenhuma criança. Imagina a complexidade de ser criança e ver um pinto na sua frente, e em algum momento posterior, como lidar com a situação caso não haja seu consentimento e apareça um pinto na sua frente, sendo você ainda uma menina?

 

MBL é um grupo político que se diz a favor da moral, mas defendeu Marco Feliciano após acusação de tentativa de estupro

 

Dito isso, gostaria ainda de endossar que grupos políticos extremistas estão se aproveitando desse tipo de situação para apoiar a censura e o controle da arte, senão a própria repulsa e ódio a tudo que é artístico, e isso não tem como ser positivo. É preciso saber bem separar as coisas e entender o que há por trás de todo esse ódio sendo promovido. Podem ter certeza que não é pela moral e bons costumes, ok? Até porque, em casos de tentativa de estupro e de pedofilia comprovada, estes mesmos grupos políticos não se manifestam, e/ou quando se manifestam, culpam a vítima ou a mãe da vítima na maioria dos casos, relativizando o crime e o criminoso. Não vamos nos esquecer que Alexandre Frota, que já confessou ter estuprado uma moça em rede nacional e não sofreu nenhuma penalidade, é hoje quem se declara ultra a favor da educação das crianças, da moral e bons costumes, do pudor e do conservadorismo. Algo errado não está certo, amigas (kkk).

 

Bem, por fim, não sou e nem me sinto a melhor pessoa do mundo pra opinar sobre a arte, mas de forma geral, com base em estudos e leituras, sei que um dos objetivos da arte é provocar as pessoas, chamá-las para sair da sua zona de conforto e refletirem. A arte não tem e nem precisa ter um compromisso ideológico, uma militância, uma moral. Retratar algo de forma artística não significa concordar com aquilo que está sendo retratado. Você pode e DEVE criticar a arte como sendo de bom ou mau gosto, você pode dar seu suado dinheiro a exposições ou boicotá-las. Você pode fazer textão sobre qualquer tipo de arte. O que não se pode é proibir que a arte aconteça, odiar os artistas e censurá-los. É urgente que a gente saiba não gostar ou discordar de algo mas entender que aquilo existe, e simplesmente continuar vivendo, ignorar.

ESCRITO POR

Luma Mattos

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Clichês sexistas cotidianos

Essa semana quando estava aqui na internet zapeando inspiração pra vir escrever pra vocês, acabei encontrando um artigo muito interessante sobre o trabalho de uma grafista chinesa chamada Yang Liu. Em 2014, ela lançou um livro chamado Man Meets Woman, com diversos pictogramas verde e rosa mostrando clichês sexistas presentes no nosso dia-a-dia – sabe, aquelas ideias socialmente prontas [e bem bestas] de que homem só sabe fazer uma coisa de cada vez e mulher não entende nada de consertar coisas (*revira os olhos*).

 

mysteriousobjectsyangliu

Objetos misteriosos

 

 

A Liu usa imagens bem simples para mostrar alguns desses clichês, mas consegue dizer muito com elas. Ela consegue mostrar que as mulheres, infelizmente, ainda têm um caminho bem longo a percorrer em se tratando da luta pela igualdade homem-mulher no mercado de trabalho e em muitos outros aspectos da vida cotidiana, mas, ao mesmo tempo, a artista deixa claro que somos seres diferentes e que muitos desses estereótipos não podem ser válidos nem para mulheres e nem para homens. Aqui algumas outras obras desse livro lindo da Yang Liu.

 

 

competitionyangliu

Competição

 

 

esteriotiposyangliu

Revista para homens | Revista para mulheres

 

 

multitaskingyangliu

Foco único | Multitarefa

 

 

sexualexperienceyangliu

Experiência sexual

 

 

Eu acredito que esse tipo de trabalho é muito importante atualmente. Ele torna o comum e óbvio, visível. Existem representações no trabalho da Yang Liu que são tão naturalizadas que a gente nem se dá conta de que são absurdas, e outras tão absurdas que a gente até custa a acreditar que faz parte da realidade.

 

Esse trabalho faz, de uma maneira praticamente universal (muitas imagens e poucas palavras), um convite ao pensamente e a revisão de certas “crenças” pré-construídas e baseadas em…. nada.

 

Para mais sobre a Yang Liu e seu trabalho,  dá uma olhada no site oficial dela (em inglês). Tem também o artigo que falei em francês e esse aqui, também em inglês.

 

 

Imagens – © Yang Liu

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Jenny Santos

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Arte que faz refletir

Na semana passada, uma das professoras com quem trabalho aqui pediu para eu preparar uma aula sobre Arte Urbana. Como era uma turma de português já bastante avançada, resolvi fazer algo que não se limitasse só a beleza, cores e “enfeitar a cidade”. Queria fazer uma coisa que os fizesse pensar e entender um pouco da situação no Brasil.

 

Foi ai que o artista certo apareceu, bem na hora certa.

 

paulo_ito

 

 

O nome desse moço é Paulo Ito. Já ouviram falar? Ele ficou conhecido porque fez essa obra que vocês podem ver na foto na época da Copa do Mundo.

 

Resolvi então pesquisar um pouco mais sobre o Paulo Ito e encontrei uma entrevista que ele deu no ano passado para o site Street Art Brasil. Fiquei impressionada com a carga social que têm todas as suas obras, sua visão sobre a arte de rua e, claro, com as obras em si.

 

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O mais interessante de obras tão críticas na verdade é o fato de elas estarem ai, na rua, para todo mundo ver. Na entrevista que eu falei pra vocês, o artista é questionado sobre o porquê de utilizar o espaço público e paredes como suporte e ele diz:

 

“Porque assim como ninguém vai tatuar meus trabalhos também não vão por em cima da lareira. Então me resta a rua, lá tenho a liberdade que assusta instituições, mercado de arte e curadores.”

 

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Para a aula que eu tinha que preparar, fiz a seguinte atividade: os alunos anotaram temas diversos sobre os quais o artista pinta (racismo, religião, amor, dinheiro, política, meio ambiente, etc) e em cada obra que víamos, cabia a eles dizer o tema e então, discutíamos sobre a obra, o tema, as situações passadas aqui no Brasil. Querem tentar?

 

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A arte também está aqui para isso amigos: incomodar. Fazer escândalo. Colocar a realidade em uma perspectiva que não pode ser ignorada: porque ela tá ali, na sua parede, no seu caminho, e você acaba lembrando que tudo isso também está na sua vida.

 

Veja mais obras no facebook do artista ou no seu Flickr

 

 

ESCRITO POR

Jenny Santos

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