Diva mas sem Frescura

#LeiaMulheres: Presos que Menstruam – Nana Queiroz

Já falamos sobre o #leiamulheres aqui. Seguindo na missão de indicar bons livros e escritoras, o escolhido de hoje é o “Presos que Menstruam”, da Nana Queiroz.
 

O livro é dividido em curtos textos, sendo a maioria deles dedicado a história de alguma detenta. Algumas trajetórias ocupam mais de um capítulo e é fácil perceber quando a autora retorna à alguma mulher que já fora apresentada, embora tais desdobramentos não estejam em sequência. A autora reuniu relatos de mulheres que cumprem pena em presídios femininos, quase sempre desprovidos de estrutura que garanta dignidade básica, como por exemplo, o fornecimento de absorventes menstruais mensais e condições adequadas para o parto e puerpério, fazendo com que algumas detentas improvisem absorventes inclusive com restos de pão e outras tenham seus filhos no chão da cadeia.
 
Outra situação essencialmente feminina, que escancara a falta de estrutura dos presídios, é a amamentação e situação dos filhos das detentas durante o cárcere. Em 2009, o então Presidente Lula sancionou a Lei 11.942, que assegura às mães que estão presas a amamentação de seus filhos por no mínimo 6 meses, além de cuidados médicos adequados para ambos. Infelizmente, essa lei nem sempre é respeitada e atualmente há apenas cerca de 70 berçários e creches em todo sistema carcerário feminino brasileiro, de acordo com o levantamento da autora.

Infelizmente o discurso reacionário e punitivista vem ganhando força em nossa sociedade e é comum quem defenda que quem está preso não deva mesmo ser tratado com dignidade, afinal, cometeu algum crime para estar ali. O que essas pessoas esquecem é que cedo ou tarde essas pessoas voltarão para o convívio em sociedade e não é interessante para o coletivo que elas retornem piores do que entraram, em consequência das condições subumanas às quais foram submetidas. Além do mais, a garantia de condições dignas de sobrevivência durante o cumprimento da pena é uma questão básica de direitos humanos e isso nem deveria ser objeto de discussão. É obvio que pessoas perigosas, homens e mulheres, devem ser isolados e o livro não se trata de uma ode à impunidade para as mulheres, muito menos sugere que elas tenham acesso a luxos e futilidades, trata-se apenas da defesa da garantia de condições de sobrevivência dignas.
 

“Quando um homem é preso, comumente sua família continua em casa, aguardando seu regresso. Quando uma mulher é presa, a história corriqueira é: ela perde o marido e a casa, os filhos são distribuídos entre familiares e abrigos. Enquanto o homem volta para um mundo que já o espera, ela sai e tem que reconstruir seu mundo.” (Trecho do livro)
 

Ao longo dos relatos é visível que a maioria delas são abandonadas pela família e seus parceiros amorosos ao serem presas, sendo válido frisar que muitas delas encontram-se nessa situação por terem se associado ao crime, justamente, por intermédio ou associação com o namorado/cônjuge. Além do abandono sofrido mais intensamente pela mulher, outra questão que perpassa gênero é a dificuldade imposta pelos presídios para as visitas íntimas. Em um dos casos acompanhados por Nana Queiroz, a detenta era impedida de receber visitas íntimas de sua companheira, também mulher, escancarando o preconceito e falta de orientação dos servidores dessas instituições.

O livro é um relato honesto acerca da realidade das detentas, com o bônus de a autora ter enxergado e nos transmitido a história e humanidade que existe atrás de cada crime cometido. Enfim, esse é um dos melhores livros que li nos últimos meses e recomendo fortemente a leitura. É impossível não se revoltar e/ou emocionar com muitas das trajetórias relatadas. É fácil e cômodo alimentar o discurso de que todos os criminosos devem ser tratados de forma idêntica, mas, como é pontuado logo na contracapa, a igualdade é desigual quando não considera as diferenças. Não é possível que alguém considere normal mulheres parirem no chão das cadeias. Mas é isso, e muito mais, que infelizmente acontece aos presos que menstruam.

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Daniele Fabre

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A linha tênue entre o direito de não querer filhos e odiar crianças

Estamos vivendo tempos sombrios e acho que isso não é mais segredo pra ninguém, né? Grupos racistas e extremistas voltando sem a menor vergonha, altíssimo índice de violência no Brasil e no mundo, o preconceito espalhado por todos os lugares, o ódio virando moda e a aversão aos estudos e à cultura se propagando. Mas tudo isso teve um começo, que infelizmente não se pode mais mudar, tem um presente, e terá um futuro. A parte promissora do futuro que viveremos é complicada, pode ser mentirosa, pirracenta e imatura: nossas crianças. Como já contei pra vocês inúmeras vezes, sou mãe há pouco tempo e a maternidade me tornou outra pessoa, e mudou toda a minha visão de mundo, contudo, eu realmente não acredito que ter filhos é algo compulsório, ou seja, acredito que nem todo mundo nasceu pra ter filho.

 

 

São diversas as coisas que nos fazem felizes, mas sendo mulheres, muitas vezes nos é imposto que a felicidade está obrigatoriamente no casamento e na maternidade. Apesar de ser casada e mãe, eu discordo disso totalmente. Inclusive tanto o meu casamento quanto a maternidade foram coisas que aconteceram repentinamente e rapidamente na minha vida, e apesar de ser muito feliz, não posso negar: minha felicidade não se resume a isso. Sou um ser humano, e continuo prezando pela minha vida profissional, continuo tendo desejos e necessidades pessoais, que muitas vezes não envolvem ninguém além de mim mesma, meus objetivos e minha superação e conquistas pessoais. Sendo assim, me considero apta a falar sobre o movimento Childfree, algo que vem crescendo e infelizmente tomando proporções catastróficas pelo menos no âmbito virtual.

 

 

O movimento teve início com mulheres reivindicando o direito de NÃO serem mães, o que é totalmente válido e concordo totalmente. É preciso rebater a ideia de que a plenitude de uma mulher está no “poder” de gerar a vida, na responsabilidade de educar a vida gerada, e enfim, em todos os prós e contras que ser mãe traz consigo. As mulheres são diferentes, tem vivências diferentes, tem desejos diferentes, sonhos diferentes, e ter filhos não é e nem deve ser um objetivo na vida de todas elas. Porém, na época do discurso de ódio em que vivemos, o que era uma simples vontade de não ser mãe se tornou uma militância e praticamente uma perseguição não só a crianças, mas também a mães.

 

 

O negócio tomou uma proporção tal que já vi fotos na internet de estabelecimentos que não aceitam a presença de crianças. Já vi comentários horríveis agrupando TODAS as crianças que existem no mundo como mal educadas, desagradáveis, melequentas, fedidas, chatas, inconvenientes, choronas, e uma série de xingamentos e comentários que buscavam praticamente afirmar que crianças deveriam ficar trancadas em casa com os pais e que só quem deveria “aturar” seriam eles. E bom, como isso vem crescendo, se faz necessária uma reflexão sobre o assunto.

 

 

Primeiramente: crianças são pessoas. Segundamente: todos já fomos crianças um dia. Todos nós fomos educados por alguém, tivemos chances de refletir, mudar, pensar nas besteiras que fizemos. Nem todas resultaram em adultos maravilhosos, mas todas obrigatoriamente envelheceram. Se você não quer ter filhos, basta não ter um. Não precisa militar e propagar ódio contra pessoinhas que ainda estão aprendendo as regras de convívio social e os limites do que é aceitável e do que não é. Se você não é pai nem mãe, não tem obrigação nenhuma de educar e aturar malcriação e pirraça. Mas não precisa sentir ódio, afinal: com certeza você também não foi um anjinho e já deve ter feito muito disso um dia, mas ninguém te deixou em cárcere privado, certo? Provavelmente você recebeu bronca, de repente até uns tapas, uns castigos, e tá aí sobrevivente, depois de aprender como a vida funciona de verdade.

 

 

Você pode não ter  jeito com crianças. Pode não querer ter filhos. Pode não ter paciência com birra, choro, gritos, pirraça. Mas você não precisa sentir ódio, entende? Pois de você, adulto, é esperado que se tenha maturidade, e da criança, é esperado que se tenha infantilidade mesmo. Ou seja: ao fazer birra e querer isolar crianças limitando-as ao convívio apenas dos pais e familiares, você cai num paradoxo de estar sendo extremamente infantil. As crianças são pessoas que ainda tem jeito. Precisamos ter tolerância com elas porque elas podem aprender, podem mudar, podem amadurecer. Se odiarmos as crianças, qual legado deixaremos para o nosso futuro? Nada diferente do ódio. E se você não tem filhos, não se julgue apto a dar palpites na educação que os pais dão porque muito provavelmente você não tem conhecimento suficiente pra isso. Apenas respire fundo, e lembre-se que um dia era você no lugar daquela criança pirracenta, mas te deram muitas chances, e se hoje você está aqui, se aprendeu tudo o que sabe, é porque acreditaram que você iria mudar e amadurecer.

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Luma Mattos

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10 motivos para assistir RuPaul’s Drag Race

Graças ao bom Deus as drag queens estão em alta nos últimos tempos e temos visto até Pablo Vittar e Lorelay Fox arrasando no cenário nacional aparecendo na TV aberta. Já no cenário internacional, temos visto uma onda de Drags super famosas como Alaska, Chad Michaels, Latrice Royale, Sharon Needles e muitas outras, e tudo graças ao reality show RuPaul’s Drag Race.

 

Se você conhece, provavelmente ama, se não conhece, calma, eu explico: o reality é apresentado pela drag RuPaul, e funciona assim: 13 ou 14 participantes que já são drag queens, e elas passam por um mini desafio e um desafio principal toda semana. Após serem julgadas, as duas piores precisam fazer uma performance de dublagem e quem perder, volta pra casa. Os desafios envolvem múltiplos talentos: costurar, atuar, cantar, dublar, fazer piadas, dançar, fazer ensaios fotográficos e muitas outras coisas, cada um mais criativo que o outro.  E por que você deveria assistir? Vamos aos motivos:

 

1- Porque é muito engraçado

 

 

 

Drag queens são artistas, e a grande maioria delas leva a vida de forma muito bem humorada, sabendo relevar desentendimentos e brigas OU NÃO meu amô, e daí acabam criando altos barracos que depois de um tempo acabam sendo esquecidos ou se tornando motivo de piada. Elas falam alto, zombam umas das outras e inclusive de si mesmas. Além disso, as provas de atuação, teatro, stand up comedy ou musicais são riso garantido. Fora que sempre tem drags que são engraçadas só de respirar: Alaska, Alyssa Edwards, Shangela, Bob the Drag Queen, Bianca del Rio: o que não falta são comedy queens pra matar a gente de rir!

 

2- Porque explica o trabalho das Drags

 

RuPaul e as vencedoras das 7 primeiras temporadas

 

Kim Chi

 

Sharon Needles

 

Muita gente acha que ser drag é apenas ser homem e se vestir de mulher, mas não: as drags muitas vezes trabalham a parte estética sim, e podem criar personagens muito diferentes como Kim Chi, Sharon Needles e Sasha Velour, mas além de roupa e maquiagem, elas dublam, atuam, dançam, costuram, fazem Stand Up comedy, desfilam e até cantam se for preciso! Assistir o programa mostra como as drags são talentosas e merecem reconhecimento pelo trabalho que fazem.

 

3- Porque ajuda a eliminar preconceitos

 

 

Várias vezes meu marido assistiu junto comigo e no começo ele reclamava, dizendo: “não acredito que você ta assistindo isso”, depois de alguns episódios ele começou a dizer “caramba que legal” até que na última temporada ele acompanhou tudo comigo. Hoje em dia, ele declara sua admiração por esse trabalho incrível das drags e derrubou todos os preconceitos que ele tinha, e isso é algo muito legal de se ver. A gente acaba sentindo que está entrando no mundo das drags – e adorando isso!

 

4- Porque tem gírias maravilhosas

 

 

Sasha away? Charisma, uniqueness, nerve and talent? Jogar um shade? Aguentar a T? Untuck? Pra saber o que é isso tudo, só acompanhando a série. Queria muito que todo mundo assistisse pra eu poder usar o vocabulário RuPauliano na minha vida todos os dias e ser compreendida. Amo! Vamos combinar que seja em inglês ou em português, as melhores gírias saem do meio LGBT, né non?

 

5- Porque tem música boa

 

Naomi Smalls

 

RuPaul, uma das drags mais famosas do mundo, é cantor e toda temporada tem uma música dele sendo lançada. Sou suspeita pra falar porque tenho todas no meu Spotify, inclusive faço performances no banho e até no meio da rua se começar a tocar kkkk.

 

6- Porque sempre tem convidados legais

 

 

Latoya Jackson, Khloé Kardashian, e na nona temporada, ninguém menos que LADY GAGA! Toda temporada tem convidados super legais que muitas vezes nem são famosos aqui no Brasil, mas que dão um toque legal ao programa e também dicas profissionais para as drags, pois muitas vezes diretores, atrizes, cantores, coreógrafos e fotógrafos participam como convidados e jurados.

 

 7- Porque causa empatia

 

Carmen Carrera se declarou mulher trans após o programa

 

Entre um desafio e outro, as drags saem um pouco de seus personagens e acabam desabafando sobre suas vidas: como foi a infância e adolescência sendo gay, as dificuldades que passaram na escola e no meio familiar, o início da carreira drag e como foi a reação das pessoas, e contam um pouco sobre a vida delas. Duas drags inclusive revelaram durante o programa que eram mulheres trans, e foi super emocionante. Toda essa abertura emocional causa muita empatia porque nós, que não passamos pelas mesmas coisas, vemos o quanto é difícil não ser o que a sociedade espera e nos tornamos mais compreensivos e solidários com a comunidade LGBT.

 

8- Porque quebra estereótipos de gênero

 

 

 

Várias temporadas tiveram um desafio principal em que as drags deveriam transformar um homem hétero e todo machão em drag também, e os resultados são incríveis! Ao contrário do que os hetero topzera podem pensar, é preciso ser muito homem pra se vestir de mulher, andar de salto, se maquiar e usar peruca! Um convidado estava com tanto medo das zoações que sofreria por seus colegas de time (ele era jogador de basquete), que começou a vomitar depois de desfilar como drag. Em uma das temporadas, agora não me lembro qual, a equipe de filmagem de RuPaul participou e vários ali são casados e tem filhos. Nenhum deles teve vergonha e inclusive deram lindas declarações de como filmar o programa mudou a visão deles sobre as drags, e como eles as admiravam por tudo.

 

9- Porque tem divas drag

 

 

Derick Barry é cover de Britney em L.A.

 

Lil Kenya Michaels

 

Valentina

 

Tyra Sanchez

 

Farrah Moan

 

Beyoncé, Rihanna, J. Lo? Pode esquecer as divas pop! Temos várias drags maravilhosamente divas que deixam a gente com inveja e com vontade de ser drag também. Tem várias pra se admirar a beleza: Tyra Sanchez, Lil Kenya Michaels, Farrah Moan, Trinity Taylor, Kimora Black, Peppermint, Gia Gunn e  muitas outras que com certeza estou esquecendo agora…

 

10- Porque os looks da RuPaul são maravilhosos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu simplesmente quero ser a RuPaul. gente, que drag maravilhosa! Inclusive vou falar pra vocês que tô planejando meu aniversário de 30 anos (daqui a 3 anos kkkk) e quero festa temática do programa, em que logicamente entrarei vestida de RuPaul tocando Cover  girl ao fundo. Obrigada de nada.

 

E aí, gostou? Se quiser assistir comenta com a gente depois!! Vamos fofocar sobre tudooo!!

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Luma Mattos

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Feminismo e o casamento: opostos ou não?

Assim que eu anunciei que iria me casar, algumas pessoas me questionaram sobre o “meu feminismo”, e vejo que em 2017 muita gente ainda entende que ser feminista é ser contra o casamento. Resolvi fazer esse post pra contar um pouco pra vocês sobre a vida de feminista casada, e espero que todos os leitores possam ver que é uma coisa completamente normal.

 

 

Quem é que manda: você ou ele?

 

Bom, como não somos funcionários um do outro, ninguém manda em ninguém e nem em nada. Nós dois entendemos o casamento como uma parceria, então nós nos ajudamos sempre, conversamos, tomamos decisões juntos sobre tudo: quem vai limpar o que, quem cozinha e quem lava a louça, o que vamos fazer com nosso dinheiro e o que vamos comprar no mercado. Tudo é decidido mediante um acordo em que ambos saiam felizes e satisfeitos.

 

 

Você bota o seu marido pra fazer faxina? Uau.

 

Eu não boto ele pra fazer faxina porque como qualquer ser humano que preze uma condição mínima de higiene pra viver, ele limpa a casa quando vê que ela precisa de limpeza, e não por tirania minha. (Obs: homem nenhum merece um prêmio por isso). Nós geralmente fazemos uma permuta: ele odeia lavar a louça, então eu lavo. Eu odeio lavar o banheiro, então ele lava. E assim vai. Como sou professora e ele tatuador, às vezes precisamos trabalhar no final de semana, e então um dos dois limpa sozinho mesmo. E como temos uma bebê de 3 meses, às vezes eu cuido dela e ele limpa, às vezes ele cuida e eu limpo.

 

 

Como funcionam as finanças?

 

Olha, isso é muito particular de casal para casal. Nós dois trabalhamos, e uma parte do dinheiro e gente gasta com o que quiser, outra parte nós pagamos contas, fazemos compras e decidimos como gastar juntos. Cada um tem sua conta no banco, mas o cartão de crédito é usado para as necessidades dos dois, então sempre consultamos um ao outro quando precisamos recorrer a essa modalidade de pagamento. A gente não precisa pedir permissão pra gastar com o que quer, mas também não somos egoístas com gastos pessoais.

 

 

foto: arquivo pessoal

 

Quem cuida do bebê?

 

Eu seria injusta se dissesse que ele não cuida nada, mas também estaria mentindo se dissesse que há uma divisão justa nesse quesito. Ele dá banho, troca fralda, fica com nossa filha, mas tudo quando eu peço. Com a maioria das mulheres casadas e mães feministas que eu conheço também é assim. Todo mundo fala do tal “instinto de mãe”, mas infelizmente não rola um instinto de pai. Eu sinceramente não sei dizer se é algo social ou biológico, visto que em muitas espécies é comum a mãe ficar cuidando exclusivamente dos filhotes e o pai não estar nem aí (kkkk to rindo mas é sério).

 

 

Como é o ciúme e como lidam com as redes sociais?

 

Eu particularmente casei com um homem que eu confio e admiro, e que confia em mim e me admira, então nunca tivemos problemas com isso. Apesar de não termos segredos, temos sim um pouco de privacidade. Nunca mexemos no celular um do outro, mas se for necessário, temos livre acesso. Sabemos as senhas um do outro, mas nunca olhamos nada sem permissão. Isso é respeito e confiança, vai de relacionamento pra relacionamento. Ele nunca criticou nenhuma roupa minha, nunca teve ciúme de nenhum amigo, nunca invadiu meu espaço, e acredito que a recíproca seja verdadeira.

 

 

Você abdicou do seus desejos pessoais e profissionais por causa do casamento?

 

Não. Quando decidi formar uma família, meus objetivos foram mudando ao longo do tempo, mas prezo muito pela minha carreira profissional, por isso me casei com um homem que respeita e admira isso, e sempre me incentiva a conquistar meus sonhos e metas. É difícil dizer que tenho “desejos pessoais” porque a maioria das coisas grandes que sonho em fazer, quero meu marido e minha filha comigo, mas nas poucas necessidades pessoais que tenho, como cuidar do meu corpo, do meu visual e da minha sanidade mental, trabalhar e crescer no meu trabalho, etc… Ele me ajuda no que pode, compreende e respeita, então não precisei abrir mão dessas coisas.

 

 

E as brigas?

 

Nenhum casamento é perfeito, então lógico que brigamos, mas nunca, jamais, em tempo algum, na frente dos outros. Sempre esperamos o momento certo e nunca nos desrespeitamos com xingamentos ou agressões de nenhum tipo. Como homem criado em uma sociedade machista e eu mulher criada em um ambiente feminista, lógico que temos embates às vezes, e eu sempre aponto o machismo dele quando há, e ele geralmente escuta e reflete sobre o que eu disse.

 

 

 

Como vocês podem ver, é um relacionamento normal, saudável, respeitoso e parceiro. Por ser feminista, eu não odeio os homens e não odeio o casamento, o que odeio é a ideia de que só por ter uma vagina a mulher é quem deve limpar, fazer comida e educar os filhos, abdicando de seus sonhos e desejos enquanto o homem prospera e conquista o mundo em seu infinito tempo livre. Para que uma relação entre uma feminista e um homem dê certo, basta que ele deixe o machismo de lado, seja respeitoso e companheiro, e pense não só nas necessidades e na felicidade dele mesmo, mas na de sua companheira também. Não existe chefe e subordinado. Não existe “papel de homem” e “papel de mulher”. Existem duas pessoas que se amam, se ajudam, se respeitam e sonham juntas. Não acho que precise ser feminista pra querer isso. E vocês?

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Luma Mattos

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“Moço, fecha essa perna”: Sobre ser mulher no transporte público

As moças proletárias do meu Brasil certamente já se depararam com o infortúnio de sentar ao lado de algum homem que não só ocupa a cadeira em que está, como também boa parte da cadeira ao lado. A maioria deles não se acanha quando alguma mulher senta ao seu lado e segue lá, com as pernas arreganhadas e confortáveis. Locomovo-me por meio de ônibus pelo menos 2 vezes ao dia de segunda à sexta-feira, logo, utilizo aqui com propriedade os dados empíricos de minha rotina.
 
Durante muito tempo me questionei:
 
– Será que eles possuem bolas de cristal?
– Será que eles estão ocultando algum objeto quebrável entre a virilha e, por isso, não pode fechar as pernas?
– Será que eles pagaram uma passagem pra eles e outra para as bolas e, por isso, podem ocupar dois lugares?
– Será que são espaçosos, folgados e sem noção?

Alguns podem alegar que homens possuem testículos e é impossível sentar com as pernas fechadas quando se é um portador de bolas. Mas, para concluir que isso está longe de ser uma justificativa plausível, basta observar o que milagrosamente acontece com esses homens quando outro sacudo senta ao lado: Mais que rapidamente as pernas milagrosamente se fecham, afinal, nenhum dos dois quer ficar roçando a perna em outro moço, né.

Considerando a falta de educação, noção e senso coletivo desses queridos, Madri lançou uma campanha de conscientização para os homens “fecharem as pernas” no transporte público. Por meio de um comunicado, a Empresa Municipal de Transportes de Madrid disse que o objetivo das placas foi alertar os passageiros do sexo masculino acerca da “necessidade de manter o comportamento cívico e respeitar o espaço de todos a bordo do ônibus”.
 
Em 2014, a autoridade responsável pelo transporte metropolitano de Nova York também lançou uma iniciativa similar ao espalhar placas no metrô da cidade que diziam: “Cara…pare de abrir as pernas, por favor”. A cidade americana da Filadélfia também iniciou a campanha “Cara, isso é rude”, enquanto o departamento de transportes de Seattle pendurou placas que mostravam um polvo espalhando seus tentáculos nos assentos próximos.
 

Eu quando sento ao lado de homem espaçoso.


 

Desde cedo as meninas são ensinadas a cultivar posturas retraídas: “Senta igual uma mocinha”, “mocinha tem modos”, “mocinha não faz falta de educação”. O mesmo não ocorre aos meninos. Sendo assim, podemos refletir além do fato de que se tratam de homens mal educados e espaçosos, pontuando que tal questão também envolve relações de poder e corporeidade. A maioria dos homens naturalmente se sentem a vontade para serem espaçosos, mesmo que inconscientemente. Eu realmente acredito que muitos não o façam de propósito, visando prejudicar ou invadir o espaço do outro, daí a importância de campanhas de conscientização como essa. Talvez, a maioria deles sequer tenha se dado conta desse hábito um tanto inconveniente para quem está ao lado.
 
Vamos ajudar a alertá-los?

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Daniele Fabre

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